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Reduzir a conta de luz das áreas comuns: guia prático para o síndico

FinançasDaniel Coelho· 8 min de leitura

O síndico do Edifício Aurora abriu a conta de luz das áreas comuns em julho e levou um susto: o valor tinha subido quase um terço em relação a maio, sem ninguém ter ligado nada de novo. A garagem era a mesma, o elevador o mesmo, a bomba d'água a mesma. O que mudou foi a bandeira tarifária, e ninguém no condomínio sabia disso.

É assim que começa quase toda tentativa de reduzir a conta de luz do condomínio: cortando antes de entender. Este guia inverte a ordem. Primeiro você lê a conta, depois mexe no que dá retorno de verdade.

O que é a conta de luz das áreas comuns

A conta de luz das áreas comuns é a fatura de uma unidade consumidora própria, no nome do condomínio, separada das contas de cada apartamento. Ela paga tudo que serve a todos: iluminação de hall, corredores, garagem e fachada, elevadores, bombas d'água e de incêndio, portão eletrônico, interfone, câmeras, e o que houver de salão de festas, academia ou piscina.

Isso importa por um motivo prático: como a unidade é do condomínio, quem escolhe a modalidade tarifária dela é o condomínio, não a distribuidora. É aí que costuma estar o dinheiro que ninguém foi buscar. E como o gasto entra no rateio como despesa ordinária, cada real economizado aparece na taxa de todo mundo.

Leia a conta antes de trocar qualquer lâmpada

Antes de comprar equipamento, localize quatro informações na fatura: o consumo em kWh do mês, o subgrupo tarifário (algo como B3 ou A4), a modalidade tarifária e a bandeira aplicada.

A bandeira tarifária é o acréscimo que a ANEEL aplica por quilowatt-hora conforme as condições de geração do mês. Segundo a agência, a verde não tem acréscimo, a amarela acrescenta R$ 0,01885 por kWh, a vermelha patamar 1 acrescenta R$ 0,04463 e a vermelha patamar 2 acrescenta R$ 0,07877. São valores que mudam, então confira o vigente antes de usar em qualquer conta que você vá apresentar.

Na prática, um condomínio que consome 3.000 kWh por mês nas áreas comuns paga cerca de R$ 56 a mais na bandeira amarela e cerca de R$ 236 a mais na vermelha patamar 2, sem ter consumido um watt a mais. Guarde doze faturas seguidas numa planilha com mês, kWh e valor: sem essa série você não consegue provar que a economia veio da sua ação, e não da bandeira ter voltado ao verde.

Iluminação: onde o retorno aparece mais rápido

A troca de iluminação vem primeiro porque as áreas comuns acendem muitas horas por dia e a substituição não exige obra. Um corredor aceso 12 horas por dia acumula mais de 4.000 horas por ano em cada ponto de luz.

Ao comprar LED, use o Selo Procel como filtro. Para receber o selo, a lâmpada precisa cumprir critérios mínimos do programa, entre eles vida útil de 25.000 horas, eficiência de 80 lumens por watt e índice de reprodução de cor (IRC) 80. Lâmpada barata sem selo costuma queimar antes e devolver o gasto em mão de obra de troca.

Depois da lâmpada, mexa no tempo em que ela fica ligada:

  • Sensores de presença em escadas, corredores de garagem, lixeira, casa de máquinas e depósitos. São os lugares onde a luz fica acesa para ninguém.
  • Minuteria em halls de pavimento, com tempo ajustado de verdade. Minuteria de cinco minutos num percurso de quarenta segundos é decorativa.
  • Relé fotoelétrico na fachada e na iluminação externa, para acender pelo nível de luz natural e não por horário fixo.
  • Circuito separado entre o que precisa ficar aceso a noite toda (rota de fuga, portaria) e o que não precisa.

Um detalhe que passa despercebido: sensor em garagem de prédio antigo às vezes exige circuito novo. Peça orçamento com e sem a adequação elétrica, senão o custo real aparece no meio da obra.

Elevadores, bombas e o que roda sem ninguém ver

Depois da iluminação, o maior consumo costuma estar nos equipamentos que funcionam sozinhos, principalmente elevadores e bombas d'água. Eles não têm interruptor na parede, então ninguém pensa neles.

  1. Verifique o modo de espera dos elevadores. Muitos equipamentos desligam a luz da cabine e o ventilador após alguns minutos parados. É ajuste de programação, feito pela empresa de manutenção, sem troca de peça.
  2. Ajuste o despacho quando há dois ou mais elevadores. Em horários de movimento baixo, deixar um em repouso reduz partidas desnecessárias. Confirme com a manutenção se o seu equipamento permite.
  3. Investigue a bomba que liga demais. Acionamento a toda hora costuma indicar vazamento na coluna, boia com defeito ou dimensionamento errado. O consumo é o sintoma, o vazamento é a doença.

Esse tipo de verificação funciona quando está agendado, não quando alguém lembra. Coloque a leitura mensal do medidor e a inspeção dos equipamentos dentro do plano de manutenção preventiva do condomínio.

Mudar de modalidade tarifária: tarifa branca e mercado livre

Trocar a modalidade tarifária é a decisão que mais muda a conta sem exigir obra, e a menos usada pelos condomínios. Qual caminho serve para você depende do grupo tarifário da sua unidade.

Se a área comum é atendida em baixa tensão (Grupo B), existe a tarifa branca. Ela é opcional e cobra valores diferentes conforme o horário: mais caro no posto de ponta, intermediário nas horas vizinhas e mais barato fora de ponta. Segundo a ANEEL, aos sábados, domingos e feriados nacionais vale sempre a tarifa fora de ponta, e as classes residencial, rural e comercial/industrial/serviços podem aderir (a residencial baixa renda com benefício tarifário não pode). A adesão se pede à distribuidora, e há possibilidade de voltar à tarifa convencional em até 30 dias.

Ela compensa quando o consumo da área comum é baixo no horário de ponta. Se o seu prédio concentra elevador cheio, bomba e iluminação de hall justamente nessas horas, a mudança pode sair mais cara. Peça o histórico horário à distribuidora antes de decidir.

Se o condomínio é atendido em alta tensão (Grupo A), com subestação própria, existe o mercado livre de energia. A Portaria Normativa nº 50/2022 do Ministério de Minas e Energia abriu essa possibilidade a todos os consumidores do Grupo A, independentemente do consumo, a partir de 1º de janeiro de 2024, derrubando o limite anterior de 500 kW. O condomínio passa a negociar o preço da energia com fornecedores, mantendo o pagamento do uso da rede à distribuidora. Peça três propostas e compare o custo total, energia mais encargos mais uso do sistema.

Energia solar: o que a Lei 14.300 permite ao condomínio

A geração solar no condomínio é regulada pela Lei 14.300, de 6 de janeiro de 2022, que instituiu o marco legal da microgeração e minigeração distribuída. Ela prevê a modalidade de empreendimento com múltiplas unidades consumidoras, que é o caso do prédio residencial: a geração se conecta na unidade que atende as áreas comuns e os excedentes podem ser repartidos entre os condôminos, conforme o rateio definido.

Antes de pedir orçamento, resolva três perguntas: onde vai o sistema (peça avaliação estrutural, porque laje antiga nem sempre aceita a carga), como o condomínio paga (fundo de reserva, chamada extra ou financiamento mudam o quórum e a conversa na assembleia) e quem assume a manutenção. Contrato sem limpeza e monitoramento definidos vira geração caindo ano a ano.

Plano de 90 dias

Do mais barato para o mais caro:

  1. Semanas 1 e 2: junte doze faturas e monte a planilha de kWh por mês, com subgrupo, modalidade e bandeiras.
  2. Semana 3: caminhada noturna pelo prédio, anotando cada ponto de luz aceso sem necessidade e cada minuteria desregulada.
  3. Semanas 4 e 5: orce LED com Selo Procel e sensores nos pontos mapeados. Três propostas.
  4. Semana 6: peça à empresa de elevadores a verificação do modo de espera e do despacho, com parecer por escrito.
  5. Semanas 7 e 8: levante o perfil horário de consumo e avalie tarifa branca (Grupo B) ou mercado livre (Grupo A).
  6. Semanas 9 a 12: leve o pacote à assembleia. Aprovado, execute e registre a data de cada intervenção na planilha.

Esse registro de datas é o que permite mostrar o resultado depois. Coloque a série de consumo lado a lado com as intervenções na prestação de contas do condomínio: economia em gráfico com data convence mais que economia narrada.

Como aprovar isso na assembleia sem travar

Leve energia à assembleia como um pacote em etapas, não como um investimento único e grande. Troca de lâmpadas e regulagem de minuterias costumam caber na manutenção ordinária. Solar, mercado livre e obra elétrica exigem quórum próprio, conforme a convenção do seu condomínio: confira o texto dela antes de convocar, porque o quórum varia.

Para a pauta, prepare a planilha dos últimos doze meses, as propostas comparadas e a estimativa de retorno calculada com os números do seu prédio, nunca com número de folheto de fornecedor. Se a sua dificuldade é gente na sala, o problema não é a pauta, e sim a participação nas assembleias.

Energia é um dos poucos temas em que o síndico mostra resultado numérico em poucos meses. É a mesma lógica de reduzir custos do condomínio sem perder qualidade: medir, agir no que dá retorno, mostrar o antes e o depois.

Acompanhar consumo, orçamentos, decisões de assembleia e prestação de contas no mesmo lugar torna esse tipo de projeto mais fácil de sustentar mês a mês. É o que a Noque reúne no painel do síndico e no app do morador, do aviso da obra à votação e ao registro do que foi gasto. Se quiser ver como isso funcionaria no seu condomínio, fale com um consultor.

Daniel Coelho - Noque

Daniel Coelho — Time da Noque

Ajudo você e seu condomínio a ter uma melhor convivência.

Perguntas frequentes

Como sei se a conta de luz do meu condomínio está cara?

Compare o consumo em kWh, não o valor em reais. O valor sobe com a bandeira tarifária mesmo sem aumento de consumo. Junte doze faturas seguidas numa planilha com mês, kWh e valor total: se o kWh está estável e o valor subiu, o problema é tarifa e bandeira, não desperdício.

Vale a pena trocar toda a iluminação das áreas comuns por LED?

Na maioria dos prédios sim, porque as áreas comuns ficam acesas muitas horas por dia e a troca não exige obra. Prefira lâmpadas com Selo Procel, que exige vida útil mínima de 25.000 horas, eficiência de 80 lumens por watt e IRC 80. Modelo sem selo costuma queimar antes e devolver o gasto em mão de obra.

O condomínio pode aderir à tarifa branca?

Pode, se a unidade das áreas comuns for atendida em baixa tensão (Grupo B) e não for da classe residencial baixa renda com benefício tarifário. A adesão é opcional e se pede à distribuidora. Ela só compensa se o consumo for baixo no horário de ponta, então levante o perfil horário do prédio antes de solicitar.

Preciso de assembleia para trocar as lâmpadas das áreas comuns?

Troca de lâmpadas e regulagem de minuterias costumam caber na manutenção ordinária, dentro da alçada do síndico. Obra elétrica, energia solar e migração para o mercado livre pesam mais e exigem quórum próprio. Confira a convenção do seu condomínio antes de convocar, porque o quórum varia.

Condomínio pode instalar energia solar e dividir a geração com os moradores?

Sim. A Lei 14.300, de 6 de janeiro de 2022, instituiu o marco legal da microgeração e minigeração distribuída e prevê a modalidade de empreendimento com múltiplas unidades consumidoras, que é o caso do prédio residencial. A geração se conecta na unidade das áreas comuns e os excedentes podem ser repartidos entre os condôminos conforme o rateio definido.

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